Os filósofos são ignorantes no que tange à política?

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Esclarecimento inicial: eu sou um filósofo e essa nova coluna no site The Good Life tratará de tópicos como a natureza humana, o conhecimento, o sentido da vida e, é claro, a política.

Permitam-me começar citando algumas das opiniões de meus colegas sobre a política.

O jogo favorito dos filósofos é discutir qual foi o filósofo mais influente do século 21. Três nomes estão sempre no topo da lista de todo mundo:

• Jean-Paul Sartre — filósofo existencialista francês: fumante inveterado, viciado em café e mulherengo.
• Martin Heidegger, pensador metafisico alemão, famoso também por seu caso com Hannah Arendt enquanto ela era sua aluna.
• Nos países de língua inglesa, Bertrand Russell, lógico e ensaísta, também conhecido pelos seus muitos casos extraconjugais.

Um padrão começa a surgir: inteligente e sexy — que descreve os filósofos perfeitamente.

Agora, no entanto, considere as suas visões políticas:martin-heidegger-1933

Sartre defendeu o marxismo-stalinismo muito antes da revelação de quão homicida tal regime tinha sido.

Heidegger era membro do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães no ano que Adolf Hitler assumiu o poder e nunca renegou sua crença na teoria e na prática do Nazismo (ele viveu até 1976).

Russell, ao longo de sua carreira, culpou repetidamente os Estados Unidos pela maioria dos problemas do mundo e, em uma palestra, sugeriu que poderia ter sido melhor se os nazistas tivessem vencido a 2ª Guerra Mundial.

Então, surge uma questão natural: existe algo de errado com os filósofos?

A filosofia tem a fama de atrair pensadores profundos cuja busca por sabedoria pode servir como um modelo para todos nós. Sócrates ensinou que uma vida sem reflexão não merece ser vivida. E quando nos comprometemos com valores elevados na esfera particular, e políticas efetivas na esfera pública, deveríamos ser capazes de recorrer às mentes mais brilhantes para orientação. E como a política é um componente fundamental da vida bem vivida, qual influência a filosofia (e sua sabedoria) pode exercer sobre a política?

Colocando o problema em perspectiva: pessoas que vivem em repúblicas democráticas majoritariamente livres têm divergências políticas. Por exemplo, discutimos sobre quem deveria pagar por contraceptivos, se o seguro desemprego deveria ser estendido, qual o nível de tolerância permissível a suspeitos de terrorismo, e qual é o melhor tipo de ensino escolar (publico ou privado). O linguajar normalmente é ríspido, portanto amizades e relações familiares são frequentemente afetadas.

Contudo, percebam que estamos todos comprometidos com o mesmo conjunto geral de valores: planejamento familiar racional, apoio à recuperação das pessoas em dificuldades, tolerância e segurança, além de educação de qualidade. Pessoas decentes e inteligentes podem discordar sobre a melhor forma de alcançar esses objetivos.

Compare agora esses debates de repúblicas democráticas livres com a teoria e a prática de regimes políticos alternativos — várias versões de socialismo, teocracias, ditaduras tribais e assim por diante. Nações como a ex-União Soviética, China, Irã, Uganda, entre outras, servem como exemplos recentes de experimentação política em grande escala.mao

E os resultados desses experimentos são claros. Cientistas sociais estimam que os comunistas da União Soviética assassinaram 47 milhões de seus próprios cidadãos. Os chineses sob Mao Zedong aproximadamente 38 milhões. Hitler e os nazistas, 21 milhões. E tantas outras pessoas definharam, expostas ao medo e à deprivação material.

Esses números não contabilizam as pessoas mortas em guerras nas quais aquelas nações se envolveram, chamados de números do “democídio” — isto é, o assassinato a mando de líderes políticos. Para maiores informações, recomendo a obra do professor R. J. Rummel.

Hoje, todavia, a questão importante é: o que representa para a filosofia que seus representantes mais famosos tenham concedido grande prestígio aos regimes mais sanguinários na história recente? (Ou talvez em toda a história, dependendo de como um individuo estima o número de mortes do Regime Mongol de Gengis Khan, do Império Napoleônico ou das Cruzadas e assim por diante).

Por que Sartre defendeu o marxismo desde o princípio, e como ele pode negar os fatos, não mudando de opinião? O que levou Heidegger a se tornar um nazista, e porque não se manifestou por três décadas sobre seus horrores? Por que Russell se opôs tão ferozmente aos Estados Unidos enquanto parecia despreocupado com uma vitória de Hitler?

Deveríamos ter padrões mais elevados para nossos filósofos. Eles devotam suas vidas a pensar sobre questões difíceis. Então, nós podemos e devemos esperar que sejam i) mais espertos, ii) mais bem informados e aprofundados em suas reflexões, além de iii) menos propensos a excentricidades.

E vivemos em uma sociedade complicada, que respeita a divisão do trabalho, na qual não conseguimos ser oniscientes. Esperamos, assim, que os especialistas em diversas áreas acertem e ofereçam orientação para o resto de nós.friedrich-hayek

Justiça seja feita: houve diversos filósofos no século XX — Karl Popper, Friedrich Hayek, Ayn Rand, John Searle, e outros — que nos advertiram sobre esses regimes. E nós podemos ser gratos às gerações anteriores de filósofos — John Locke, Adam Smith, John Stuart Mill, e outros — que desenvolveram e defenderam os princípios políticos que permitem a tantos de nós viver livres e prósperos.

Os filósofos podem acertar, mas também podem errar. Então, já no início dessa série de artigos no The Good Life, vale a pena refletirmos sobre os riscos inerentes à prática da filosofia.

• A filosofia é tão abstrata e teórica que torna os filósofos incapazes de estabelecer conexões com a realidade prática?

• Os filósofos, assim como outros “sabichões”, são tão cheios de si que pensam que podem facilmente resolver os problemas do mundo?

• Ou o problema é outro — que muitos filósofos têm egos frágeis e não podem admitir seus erros, mesmo quando suas teorias levam ao desastre?

• Pode ser que, como Russell sugeriu, as questões filosóficas sejam simplesmente muito difíceis para nós, então uma dose cavalar de modéstia é necessária antes de pronunciamentos filosóficos?

• Ou talvez seja somente uma peculiaridade do século XX, quando tantos intelectuais se voltaram contra a democracia liberal e se apaixonaram pelo autoritarismo?

Nessas e noutras questões, sintam-se a vontade para comentar. Importante, é claro, a civilidade e a argumentação de qualidade. Desafie meus argumentos, mas se prepare para ser desafiado. Essa é a única forma de buscarmos respostas convincentes.

A filosofia é parte fundamental de nossas vidas. Somos uma espécie inteligente, sobrevivendo e florescendo na medida em que exercemos nossa inteligência na verificação de princípios de sobrevivência verdadeiros, de longo prazo. Não obstante, inteligência para aprender duras lições de nossos erros, incluindo erros desastrosos dos filósofos mais brilhantes.

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hicks-stephen-2013“Os filósofos são ignorantes no que tange à política?” Por Stephen Hicks. Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ Silva. Artigo Original no “The Good Life”. Visite EveryJoe.com para ler os últimos artigos de Stephen Hicks.

Stephen Hicks é o autor do livro Explicando o Pós Modernismo e Nietzsche and the Nazis.

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