Is Racial Tolerance the Best We Can Do? [new The Good Life column]

The opening of my latest column at EveryJoe:

“Racist attitudes are a holdover from primitive times. There is still plenty of racism, but we have made progress in some parts of the world, as this Washington Post graphic of most and least racist nations shows.

“In much of Europe, North America, Australia and New Zealand, and a few other places, racism has retreated significantly. One hypothesis is that the least-racist cultures are those most influenced by the European Enlightenment of the 1700s. That was when, for the first time in history, individualist ideas successfully overturned the ingrained collectivisms that taught people to sort themselves and others primarily into groups based on sex, class, ethnicity, religion, and race.

“But even within the most progressive nations, there are unpleasant signs.

“In Europe, the cradle of Western civilization, the resurgence of neo-Nazism in Europe is discouraging.

“The same is true, in the United States, of the instantly-polarized debates over the significance of race in the deaths of Trayvon Martin, Michael Brown, and Eric Garner.

“And even when growing up in nice, tolerant Canada, I recall seeing “Paki-stomper” t-shirts worn casually on the streets of Toronto after a wave of immigration brought a number of Pakistanis to Ontario …” [Read more here.]

the-good-life-tolerance

Last week’s column: Good Monopoly, Bad Monopoly: When are Monopolies Actually a Problem?

Posted in Philosophy | 3 Comments

Two essays on the organic theory of society and its uses

Two related essays worth reading at the Library of Social Science site. Both take up the biologically-collectivist Organic Theory of Society and its recent applications to politics and public policy.

Gerald V. O’Brien, Ph.D., “Social Justice Implications of the Organism Metaphor.” Abstract: “The denigration of marginalized groups is frequently supported through the widespread employment of metaphors that present a pejorative image of the group in question. The organism metaphor, wherein the target group is portrayed as a threat to the integrity of the social body, is a particularly important metaphoric theme in the advancement of social injustice. Drawing largely from primary source documents, this paper provides an overview of the organism metaphor as it has been employed historically to denigrate various social subgroups.”

Richard A. Koenigberg, Ph.D., “Nationalism, Nazism—Genocide.” Excerpt: “Hitler’s ideology grew out of his fantasy of the German nation as an actual organism, or body (politic). ‘Our movement alone,’ Hitler declared, ‘was capable of creating a national organism.’ In place of the State, Hitler said, must be set ‘the living organism — the people.’ Hitler conceived of Germany as a body politic consisting of German people as its cells.”

Posted in Human Nature, Politics | Tagged , , , | Leave a comment

Burckhardt quotation on the birth of individualism in the Italian Renaissance

From Jacob Burckhardt’s great The Civilization of the Renaissance in Italy (1860): Burckhardt,J-Civilization

In the Middle Ages, “Man was conscious of himself only as a member of a race, people, party, family, or corporation — only through some general category. In Italy this veil first melted into air; an objective treatment and consideration of the state and of all the things of this world became possible. The subjective side at the same time asserted itself with corresponding emphasis; man became a spirited individual, and recognized himself as such.”

Source: Part 2, “The Development of the Individual,” p. 70.

Posted in History | Tagged , , , | Leave a comment

Conservadores contra o capitalismo de livre mercado

olavo-de-carvalho-620x350

Depois de bater em alguns ícones “da esquerda” (aqui, aqui, e aqui, por exemplo), é hora de castigar alguns “da direita”.

O vocabulário político norte-americano tende a dividir as pessoas entre liberais¹ (na esquerda) e conservadores (na direita). Todas essas definições são generalizantes, e a grande questão é como classificar libertários, democratas, socialistas, teocratas e outros. Contudo, uma alegação comum nas discussões é que os conservadores favorecem o capitalismo de livre mercado. Progressistas e socialistas são hostis ao capitalismo, e estão “na esquerda”, de forma que os capitalistas devem estar “na direita” junto com os conservadores.

É uma alegação com um traço de verdade jornalística. No entanto, apresenta um grande defeito: por séculos, os grandes pensadores do lado conservador têm argumentado, praticamente sem exceção, que os conservadores não podem ser capitalistas. E os grandes pensadores do capitalismo de livre mercado têm buscado, quase sem exceção, explicar o porquê de não serem conservadores. Ambos os lados estão corretos.

Começaremos com os grandes nomes do conservadorismo. No contexto norte-americano, existem diversas subespécies — conservadores religiosos, neoconservadores, conservadores tradicionais e conservadores moderados. Então, veremos o que os representantes de cada subespécie dizem sobre o capitalismo de livre mercado.

Vou começar com Robert Bork, representante do conservadorismo religioso. Bork foi o jurista a quem o Senado norte-americano negou um assento na Suprema Corte. O que segue é uma citação do seu livro Slouching Towards Gomorrah: bork-time-227x300“Como os libertários e os progressistas estão alheios à realidade social, ambos demandam autonomia pessoal radical de expressão. Essa é uma razão pela qual os libertários não devem ser confundidos, como frequentemente o são, com conservadores”. Bork prossegue, argumentando que: “os economistas de livre mercado são particularmente vulneráveis ao vírus libertário” e cita erros no campo da ética e da natureza humana como a causa raiz — frequentemente, o economista de livre mercado “ignora a questão de quais desejos são moralmente justificáveis” e falham em reconhecer que “a natureza humana irrestrita buscará a decadência com tal frequência que criará uma sociedade perigosa, hedonística e desordenada”.

Note a linguagem agressiva: o livre mercado desencadeia a decadência e é como um vírus.

Agora, considere Irving Kristol. O “padrinho” dos neoconservadores, na sua contribuição ao Capitalism Today:

“O caos espiritual intrínseco aos nossos tempos, tão poderosamente criado pelas dinâmicas do próprio capitalismo, é tão forte que torna o niilismo uma tentação fácil. Uma ‘sociedade livre’, na concepção Hayekiana, dá origem ao grande número de ‘espíritos livres’ vazios de substancia moral.”

Novamente, linguagem agressiva: o capitalismo leva ao caos, ao niilismo e ao vazio moral.

Agora, como representante do conservadorismo tradicional, temos Russell Kirk. Como um articulista do website conservador Heritage Foundation coloca: “Para Russell Kirk, ‘o verdadeiro conservadorismo’ — o conservadorismo de [Edmund] Burke — foi totalmente contrário ao capitalismo irrestrito e à ideologia egoísta do individualismo”. O próprio Kirk, na crítica à defesa de Ayn Rand ao livre mercado, escreveu “nós, seres humanos imperfeitos, já somos suficientemente egoístas, sem sermos exortados a buscar o egoísmo como princípio”. Sob o capitalismo implacável, Kirk argumentou, um homem se torna “um átomo social, faminto por emoções exceto a inveja e o tédio, separado da verdadeira vida familiar e reduzido a um mero ente doméstico, seus velhos pontos de referência, mortos, sua antiga fé, dissipada”.

Logo, um conservador deve opor-se ao individualismo, atomismo e egoísmo capitalistas.George-will

No coração de todos esses conservadores está o reconhecimento de que o capitalismo ameaça a moralidade tradicional. Como o colunista conservador George Will claramente expôs, temos uma dura escolha a fazer: “Ou o conservantismo cultural. Ou o dinamismo capitalista. O último anula o primeiro”.

Do lado capitalista, os expoentes mais importantes do livre mercado retornaram o favor e criticaram ferozmente o conservadorismo.

Milton Friedman, economista vencedor de prêmio Nobel e poderoso defensor do livre mercado, favorecia tanto a legalização das drogas quanto o casamento gay, assim ganhando a inimizade de muitos conservadores. Friedman também era ferozmente contrário ao alistamento militar obrigatório, uma causa frequentemente defendida pelos conservadores. (Recentemente, o conservador moderado David Brooks, escrevendo no The New York Times, argumentou em prol do restabelecimento do alistamento civil).

Friedrich Hayek, outro economista de livre mercado vencedor do prêmio Nobel, escreveu um ensaio intitulado “Por que não sou conservador”, no qual se descreve como um liberal de princípios. O problema com os conservadores, argumentava Hayek, é que como seu rótulo sugere, eles tem se preocupado em manter o status quo e evitar os extremos da liberdade e do autoritarismo. Como resultado, Hayek destacou, “normalmente têm sido os conservadores que fizeram concessões ao socialismo”.

E a romancista e filosofa Ayn Rand, no seu estilo guerreiro, caracterizou o conservadorismo como intelectualmente morto e atacou seus princípios centrais na obra “Conservatism: An Obituary” (tradução livre, “Conservadorismo: um obituário”).ayn-rand_dollar-pin Rand se definiu como uma radical pró-capitalismo e argumentou que necessitamos uma moralidade racional e moderna em substituição às moralidades antigas e obsoletas de obediência e fé defendidas por muitos conservadores. É surpreendente que mesmo tendo recebido pesadas críticas da esquerda, as piores vieram da direita conservadora.

Então, identificamos um padrão: os principais conservadores opõem-se ao capitalismo e os principais capitalistas opõem-se ao conservadorismo. E estamos frente a um dilema: na linguagem popular, o conservadorismo e o capitalismo são frequentemente confundidos.

A questão da linguagem popular é facilmente explicável. Existe uma tendência geral à busca de dualidades ideológicas — democratas versus conservadores, esquerda versus direita. Nos Estados Unidos, essa tendência é reforçada pelo sistema bipartidário, o qual parece resumir a política a duas opções possíveis. E dentro do sistema bipartidário, os esforços generalizantes atuais podem levar facções a omitir ou ignorar diferenças significativas.

O problema mais desafiador é de ordem filosófica, enquanto o debate conservadores contra capitalistas revelava duas concepções conflitantes de moralidade — uma mais otimista e moderna, a outra mais pessimista e tradicional.

Indivíduos são fracos, argumentam os conservadores, eles irão destruir a si e aos outros se forem deixados livres. Legalizar as drogas e o álcool significa intoxicação em massa, liberdade sexual significa promiscuidade, e escolha do estilo de vida significa que indivíduos não irão pertencer a unidades socialmente significativas, a não ser que sejam coagidos indiretamente, ou até mesmo abertamente, a participar delas. Seres humanos necessitam de estrutura — não a estrutura que eles escolhem, mas aquela que é imposta a eles pelo condicionamento familiar, pelo valor da tradição e apoiado pela lei.

Indivíduos são competentes, provavelmente diria o capitalista em resposta. Eles podem lidar com a liberdade e utilizá-la de modo produtivo. Sim, alguns indivíduos irão abusar dela e irão se viciar e isolar, contudo, a maioria busca relações familiares e amorosas verdadeiras e com significado, e ainda aprendem a utilizar entorpecentes de maneira responsável. Através de livre experimentação e exploração, todos os indivíduos poderão melhorar as suas vidas de maneira racional. Porém, para aproveitar o dinamismo das sociedades liberais modernas, precisamos estar dispostos a modificar ou até mesmo rejeitar as velhas tradições

A política é dependente da filosofia — outra maneira de demonstrar o argumento. Os grandes debates sobre política contemporânea são, em sua origem, debates sobre a natureza humana e moralidade.

* * *

¹ Nota do Revisor: Liberal é um termo que se refere aos membros da esquerda atual. Os liberais, no sentido empregado em terras tupiniquins, são os classic liberals (liberais clássicos) e os libertarians (libertários).

* * *

hicks-stephen-2013“Conservadores contra o capitalismo de livre mercado.” Por Stephen Hicks. Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ Silva. Artigo Original no “The Good Life”. Visite EveryJoe.com para ler os últimos artigos de Stephen Hicks.

Stephen Hicks é o autor do livro Explicando o Pós Modernismo e Nietzsche and the Nazis.

Posted in Economics, Philosophy, Politics, The Good Life | Tagged , , , , , , , , , | Leave a comment

Unamuno on Kant on God in the first two Critiques

From Miguel de Unamuno’s 1913 The Tragic Sense of Life, on how Kant first destroys rational belief in the existence of God but then resurrects that belief on moral grounds. Or: how Kant’s head says No to God but his heart says Yes. unamuno Or: how mortal man cannot find God but the immortal soul demands him:

“Take Kant, the man Immanuel Kant, who was born and lived at Königsberg, in the latter part of the eighteenth century and the beginning of the nineteenth. In the philosophy of this man Kant, a man of heart and head — that is to say, a man — there is a significant somersault, as Kierkegaard, another man — and what a man! — would have said, the somersault from the Critique of Pure Reason to the Critique of Practical Reason. He reconstructs in the latter what he destroyed in the former, in spite of what those may say who do not see the man himself. After having examined and pulverized with his analysis the traditional proofs of the existence of God, of the Aristotelian God, who is the God corresponding to the ζωον πολιτικον, the abstract God, the unmoved prime Mover, he reconstructs God anew; but the God of the conscience, the Author of the moral order — the Lutheran God, in short. This transition of Kant exists already in embryo in the Lutheran notion of faith.

“The first God, the rational God, is the projection to the outward infinite of man as he is by definition — that is to say, of the abstract man, of the man no-man; the other God, the God of feeling and volition, is the projection to the inward infinite of man as he is by life, of the concrete man, the man of flesh and bone.

“Kant reconstructed with the heart that which with the head he had overthrown. And we know, from the testimony of those who knew him and from his testimony in his letters and private declarations, that the man Kant, the more or less selfish old bachelor who professed philosophy at Königsberg at the end of the century of the kant-foreheadEncyclopedia and the goddess of Reason, was a man much preoccupied with the problem — I mean with the only real vital problem, the problem that strikes at the very root of our being, the problem of our individual and personal destiny, of the immortality of the soul. The man Kant was not resigned to die utterly. And because he was not resigned to die utterly he made that leap, that immortal somersault, from the one Critique to the other.

“Whosoever reads the Critique of Practical Reason carefully and without blinkers will see that, in strict fact, the existence of God is therein deduced from the immortality of the soul, and not the immortality of the soul from the existence of God. The categorical imperative leads us to a moral postulate which necessitates in its turn, in the teleological or rather eschatological order, the immortality of the soul, and in order to sustain this immortality God is introduced. All the rest is the jugglery of the professional of philosophy.

“The man Kant felt that morality was the basis of eschatology, but the professor of philosophy inverted the terms.”

Exactly.

Kant’s philosophy initially incorporates many dualisms — reason versus desire, reason versus belief in God, reason versus morality. The dualisms, he thinks, are irreconcilable. So he faces a stark choice: the beliefs of desire/God/morality or the beliefs based on reason. He chooses the former. And that requires a subversion of reason. Hence the project of the first Critique and his happily denying knowledge to make room for faith.

Philosophically: the religious Kant dominates the philosopher Kant.

ep-ed-front-cover-150pxHistorically: Kant is best — that is, most fundamentally — categorized as a counter-Enlightenment thinker who opens the door to the nineteenth-century irrationalisms of Schleiermacher, Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche, and others.

Source: Miguel de Unamuno’s The Tragic Sense of Life. A Project Gutenberg version is online here. See Chapter 2 of my Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault for the critical importance of the Kantian turn in philosophy to the developments that led to postmodernism.

Posted in Religion | Tagged , , , , , | 1 Comment

Good Monopoly, Bad Monopoly: When are Monopolies Actually a Problem? [new The Good Life column]

The opening of my latest column at EveryJoe:

“Let me give you some examples of monopolies and ask: Which are good and which are bad?

“1. Megan and Ramon begin dating and become enraptured of each other. Soon they are monopolizing each other’s time and decide to form a lifetime, exclusive relationship.

“2. A town in a remote area has a few stores (a grocery, a bank, and a gas station) but no restaurant — until Anita arrives and opens one. Soon she has a lively business of regulars and occasional travelers who eat their meals there.

“3. A chemist invents a new coating that provides airtight seals at a fraction of the current cost. Soon his coating is being used for virtually all products that require an airtight seal.

“4. For twenty years, Carrie and Hardy have been the only two accountants at a medium-size firm. They know the firm’s books intimately, as well as all of its vendors and customers. Carrie retires, leaving Hardy as the firm’s only accountant with extensive knowledge of the firm’s processes.

“5. A mid-size manufacturing company has 1,000 employees, 990 of whom vote to form a union. The company’s owner signs a five-year contract agreeing to bargain only with the new union’s representatives on matters of wages and benefits.

“6. A national government grants special status to a private firm as the only one allowed to deliver mail. If any other company tries to compete, the police will shut it down.

“Monopolies are a regular feature of our lives. But they come about for many different reasons and impact us differently. Humans create and exchange all sorts of values with each other in many markets, and any principled policies about monopoly must be consistent.

“So let’s start with Megan and Ramon, who were in the dating market…” [Read more here.]

the-good-life-good-bad-monopolies

Last week’s column: Who Is Really Serious About Monopolies?

Posted in Philosophy | Leave a comment

Announcement: Polish translation of Explaining Postmodernism in the works

I’m happy to announce that there will be a Polish translation of Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault. The translator, Kasia Nowak, is now working on the manuscript, and publication will likely be toward the end of 2015 or early 2016.

Nowak also did the Polish translation of my Nietzsche and the Nazis, so I know that my words are in good hands. Thanks also to Przemek Zientkowski for effecting this project.

Posted in News | Tagged , | Leave a comment

O desastre ambiental do Love Canal — quatro décadas depois


love-canal-620x350

Em primeiro lugar, algumas boas notícias sobre o desastre ambiental do Love Canal (Canal do Amor em tradução livre), ocorrido na década de 1970, em Nova York: o resultado de estudos de longa duração não mostrou aumento das taxas de câncer ou defeitos de nascença entre os residentes dos arredores. Essa é uma boa notícia, mesmo que produtos químicos tóxicos tenham sido lançados no meio ambiente, e moradores tenham sido aterrorizados, removidos e tenham sofrido grandes perdas devalor de suas propriedades.

Agora, as más notícias: o Canal do Amor é um exemplo clássico de mau jornalismo combinado à má filosofia que, quatro décadas depois, continua a contaminar o pensamento popular e as políticas públicas.

A história começa na década de 1940, quando a empresa Hooker ElectroChemical Corporation adquiriu um terreno próximo às Cataratas do Niágara, a qual desejava utilizar como depósito de resíduos de sua indústria química. Antes da década de 1940, o exército dos Estados Unidos e o governo municipal tinham usado o terreno como aterro. Hooker testou o local e o julgou seguro. Os inspetores dos governos estadual e local aprovaram o uso do terreno e emitiram as licenças correspondentes. Hooker usou o local até o início da década de 1950, quando a capacidade do aterro se esgotou. Nesse ponto, o aterro foi recoberto com uma camada impermeável de argila e abandonado.love-canal-waste

Avance duas décadas, os anos 70, quando ocorreu o desastre. Alguns moradores do Canal do Amor notaram infiltrações em suas casas e notificaram as autoridades, as quais a identificaram como produtos químicos tóxicos. Os residentes ficaram naturalmente assustados e ofendidos. A mídia se dirigiu ao local e a história tornou-se nacional e internacional. O presidente Jimmy Carter declarou o Canal do Amor como uma área de desastre e cerca de 900 famílias foram realocadas.

Agora, para a importância do jornalismo e da filosofia.

Na imprensa, a empresa Hooker foi amplamente condenada. Ralph Nader denunciou-a como uma “empresa insensível” que depositou resíduos químicos sem preocupação com a saúde pública. Um artigo publicado em 1979 no Atlantic Monthly questionava se poderíamos esperar que corporações privadas agissem de forma responsável, sugerindo que a busca pelo lucro as levava a se preocuparem mais com o dinheiro do que a saúde. A empresa Hooker logo foi processada em mais de US$ 2 bilhões. A Agência de Proteção Ambiental rapidamente estabeleceu diversas regras novas sobre como tratar resíduos industriais. Em 1980, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o superfundo proposto pelo senador Al Gore — no valor de US$ 400 bilhões — dedicado à questão da destinação do lixo tóxico nacional.

E graças, em grande parte, ao Canal do Amor que uma filosofia ambiental se arraigou na consciência pública: corporações insensíveis, sedentas por lucros, estão poluindo nosso ambiente, causando defeitos de nascença e câncer, e somente o governo pode nos salvar.

Essa narrativa abstrata, todavia, no caso do Canal do Amor, é quase perfeitamente oposta à verdade. Daqui em diante, discutiremos sobre uma narrativa mais importante.

Também no início dos anos 50, o Conselho de Educação da cidade de Niagara Falls desejava algum terreno para a construção de uma nova escola. Para os membros deste conselho, a região do Canal do Amor era ideal e terminaram por fazer uma oferta à Hooker, pedindo para adquirir o terreno. Mas Hooker negou-se a vender. A corporação informou que o local continha resíduos químicos tóxicos e, portanto, era inapropriada para uma escola. Contudo, o Conselho de Educação, como uma agência governamental, tinha o poder político ao seu lado — nesse caso, o poder da desapropriação. Dessa forma, ignorou a recusa de Hooker, ameaçando utilizar o governo municipal para força-la a vender.

Então, a corporação Hooker vendeu a propriedade à cidade por 1 dólar. Mas no contrato de venda — e em vários veículos públicos de informação — Hooker deixou explícito o histórico da propriedade como um depósito de lixo químico, expressando sua forte oposição aos planos do governo municipal, e especificou que, sob nenhuma circunstância, a camada de argila deveria ser rompida.
Mesmo assim, o governo municipal prosseguiu com seus projetos: estabeleceu redes de esgoto, vendeu alguns terrenos a construtores que, por sua vez, construíram casas. E, como originalmente desejado, uma escola foi construída no local.hazardous-waste-300x216

Então, quem são os verdadeiros vilões da história?

Todo o supracitado é questão de domínio público, alguns críticos argumentaram que a discussão sobre o desastre do Canal do Amor estava perdendo o rumo e que lições erradas estavam sendo retiradas do fato.

Não obstante, o poder da narrativa corporação má / governo bom é realmente forte. Mesmo hoje, quatro décadas depois, ela prevalece. Em 2013(!), um jornalista do USA Today resumiu a história dessa maneira: “a tragédia do Canal do Amor começou quando a empresa Hooker Chemical usou um canal abandonado, de 1942 a 1953, para despejar 21.800 toneladas de resíduos industriais perigosos. O canal foi posteriormente coberto, e casas e escolas foram ali construídas”. Nenhuma menção ao Conselho de Educação ou à habilidade governamental de forçar a venda.

Mas a tragédia do Canal do Amor não teria acontecido sem (1) o poder político da desapropriação, e (2) a confiança dos oficiais do governo de que não seriam responsáveis caso algo de errado acontecesse.

A questão é séria, pois vivemos em uma sociedade intensiva em ciência e engenharia. Existem muitas vantagens relacionadas à vida em uma sociedade high-tech — mas também existem muitos riscos, incluindo resíduos tóxicos. Como iremos cuidar dos produtos químicos perigosos dos quais depende nosso estilo de vida, mantendo nosso ambiente seguro e belo? Devemos aprender as lições corretas de grandes erros.

Deveríamos nos questionar, como resultado do Canal do Amor:

• Esse caso reduziu a habilidade do governo de adquirir propriedades por meio da desapropriação?

• Algum político ou oficial do governo foi:

1. Condenado por negligência?
2. Forçado a pagar indenizações?
3. Preso?

As respostas são: não, não, não e não.

No caso do Canal do Amor, a empresa comportou-se de forma responsável — precisamente por causa da busca do lucro. Os diretores da empresa eram seres humanos normais que não queriam envenenar ninguém, mas a busca do lucro concedeu-lhes um incentivo adicional a agir de forma responsável: desejam uma reputação positiva para a empresa, evitando processos judiciais onerosos.

E no caso do Canal do Amor, o poder público comportou-se de forma irresponsável — precisamente porque os oficiais tinham pouco ou nenhuma responsabilidade monetária ou legal.Love_Canal_protest

Nosso mau jornalismo e nossa má filosofia ambiental reforçaram a irresponsabilidade. A história subsequente do caso foi a punição da parte responsável. A Hooker e a Occidental Petroleum — empresa que adquiriu a Hooker em 1968 — foram forçadas a pagar centenas de milhões de dólares em indenizações e, além disso, criticadas e ridicularizadas na imprensa, sofrendo condenação pública.

E a história subsequente foi o perdão à parte irresponsável. Os membros do Conselho de Educação de Niagara Falls e seus apoiadores no governo municipal conseguiram, em grande parte, livrar-se tanto do escrutínio público por seu papel quanto dos custos financeiros relacionados às ações judiciais e à limpeza do local.

A questão aqui não é a dicotomia liberal de empresas privadas responsáveis versus governos irresponsáveis. A questão é que todos os poderes, privados ou públicos, deveriam assumir as responsabilidades por seus atos.

Em especial, o caso do Canal do Amor serve de exemplo de que o poder coercivo governamental da desapropriação deveria ser minuciosamente verificado. Dezenas de milhares de governos locais ao redor do mundo ainda possuem esse poder não escrutinizado da desapropriação; dezenas de milhares de políticos ainda desejam construir escolas e aumentar sua arrecadação de impostos.

* * *

hicks-stephen-2013“O desastre ambiental do Love Canal — quatro décadas depois” Por Stephen Hicks. Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ Silva. Artigo Original no “The Good Life”.
Visite EveryJoe.com para ler os últimos artigos de Stephen Hicks.

Stephen Hicks é o autor do livro Explicando o Pós Modernismo e Nietzsche and the Nazis.

Posted in Philosophy | Leave a comment