A batalha pelas universidades [Portuguese translation]

Primeiro ponto: os manifestantes não são nem “flocos de neve” que derretem quando o clima esquenta, nem “flores delicadas” cujos sentimentos são machucados. Os estudantes universitários já viram filmes violentos, terminaram relacionamentos, leram coisas grotescas na internet, viram filmes pornôs, perderam pessoas queridas, e ouviram notícias trágicas sobre eventos ao redor do mundo. Ainda assim, sobreviveram.

Com base no vocabulário utilizado, aprendemos que os manifestantes em geral têm uma grande capacidade para o uso de palavrões, insultos e expressões vulgares. Não obstante, desde a infância, todos eles aprenderam de professores, pais e desenhos animados quando ou não dizer foda-se ou não vou com a sua cara.safe-space-campus-protest-r

Eles podem estar furiosos, mas são adultos que sabem o que estão fazendo. Cry-bullies[1] é uma boa definição, mas eu tiraria a parte do “choro”, pois ele é uma tática.

Segundo ponto: a maioria das queixas dos manifestantes não serve para pressionar por uma solução, mas sim para inflamar os ânimos e prestar serviço à estratégia política de poder.

Nós todos já vivenciamos a mesma dinâmica em relações pessoais. Uma vez que você decidiu que não gosta de uma pessoa, você pode sempre encontrar algo sobre ele ou ela que seja irritante. O mesmo ponto se aplica de modo geral: uma vez que você decidiu atacar um inimigo, sempre haverá um motivo para ‘justificar’ as suas ações beligerantes.

Da mesma forma, o fato de que as demandas dos estudantes são frequentemente exageradas e semi-informadas é uma característica, e não umacidente. David Burge nota que, tristemente, “os campi hoje são uma mistura teatral de 1984 e O Senhor das Moscas, representado por pessoas que não entendem essas referências”. É, comicamente, verdade, mas isso não significa que o comportamento agressivo seja tolo e não calculado. O objetivo dos manifestantes é fazer demandas irracionais, e seu objetivo é ver o que conseguem obter com isso.

Terceiro ponto: os manifestantes têm sido orientados pela esquerda.

Estudantes são jovens adultos com mentes e iniciativas próprias, todavia, estão ainda em desenvolvimento e podem ser moldados pelas ortodoxias predominantes. Nós vemos isso em estudantes de artes e teatro que estão cultivando identidades criativas e testando intensamente seus estilos pessoais. Nós vemos isso em estudantes de ciências que estão apaixonadamente desenvolvendo sua capacidade de julgamento racional sobre a complexidade natural. Nos dois casos, existe algum tipo de autoseleção, já que os estudantes consideram algumas disciplinas universitárias mais interessantes que outras; todavia, nos dois casos, existe também um treinamento específico pelos líderes da disciplina — os professores que encorajam, instilam e exemplificam a mentalidade e o caráter que devem ser emulados.

Então, o que vemos nos manifestantes, a maioria dos quais pertence a um punhado de departamentos das humanidades e estudos sociais, é o resultado de uma subcultura acadêmica dedicada a um conjunto de valores antagonistas, tirados de um poço sem fundo de ressentimentos.

Quarto ponto: note que as vertentes progressistas, pós-modernistas e outras dentro do pensamento de esquerda têm controlado as universidades nas últimas duas gerações. E o sistema de educação pública. Não obstante, temos que acreditar e entender que o sexismo, o racismo e um grupo de outras patologias tomaram o controle de nossa cultura. Ou as instituições intelectuais e educacionais têm sido brutalmente incompetentes no ensino dos jovens — ou elas tiveram êxito em moldar uma porção significativa deles de acordo com seus preceitos. Nós deveríamos estar abertos às duas possibilidades.

Ainda assim, quando as mesmas táticas aparecem em muitos campi, isso não é necessariamente evidência de uma conspiração, mas sim do aumento da influência de um conjunto compartilhado de ideias.

Quinto ponto: uma das ideias centrais é evidente ao se analisar o padrão das queixas. Sinta pena de nós — ou de outrem.

A maioria de nós tem uma benevolência natural que nos leva a ser prestativos àqueles que estão deparando com desafios em sua vida — os doentes, os idosos, as gestantes, os pobres e assim por diante.

Ainda assim, essa benevolência pode ser capturada pela filosofia moral do altruísmo e transformada na visão de que os ricos, os poderosos, e os fortes têm uma obrigação fundamental de se sacrificar pelos pobres, pelos fracos e pelos frágeis.

Frequentemente, esse altruísmo, por sua vez, é combinado com a visão de que a pobreza dos pobres é culpa dos ricos e que a fraqueza dos fracos é culpa dos fortes (embora, às vezes, esse seja o caso).

Se, por fim, combinarmos todo o supracitado com a visão de que o mundo é dividido em grupos conflitantes — homens versus mulheres, brancos versus marrons versus amarelos versus negros, ricos versus classe média versus pobres, judeus versus muçulmanos versus cristãos versus ateístas e mais — então, geramos dentro de nós mesmos uma identificação profunda com qualquer grupo que está a falhar e uma igualmente profunda revolta contra qualquer grupo que é bem-sucedido.

O resultado é ódio contra toda “injustiça social” — e o sentimento de empoderamento moral de fazer algo em prol da causa dos pobres. Se, portanto, os fortes não estão voluntariamente se sacrificando pelos fracos — e se não estão desculpando-se por causar os problemas dos fracos — então eles [os fortes] deveriam punidos e forçados a cumprir com suas obrigações.freespeech-SamGraham-flickr

O altruísmo belicoso agora sendo usado é, portanto, consequência de uma visão de que qualquer coisa é legítima em nome dos fracos. Psicologicamente, é uma forma de altruísmo patológico, tomando emprestado o termo proposto pela professora Barbara Oakley. E em sua expressão ativista, é uma versão do que André Glucksmann nos alertou, a saber: “quão fácil era perseguir uma paixão por justiça e revolução utilizando-se de medidas indecentes”.

Sexto e último ponto: a filosofia é prática. O que estamos experimentando nos campi é filosofia aplicada. A teoria é entregue aos estudantes pelos seus professores — em centenas de assuntos, dos mais variados cursos. A teoria é então posta em prática, e as universidades, em efeito, funcionam como um experimento de laboratório para a filosofia.

Este sempre tem sido o caso na história das universidades, já que o funcionamento real das universidades modelou o padrão filosófico prevalente de seu tempo. No fim da Era Medieval, a universidade era a institucionalização da autoridade tradicional, da instrução hierárquica e da regurgitação curricular. Com o passar dos séculos, elas evoluíram em direção a um modelo humanístico de educação liberal, com ênfase no pensamento crítico, liberdade de expressão e de debate, independentemente do lado que fosse o vencedor. E agora deparamos com uma transição para o pós-modernismo antirracionalista e a política de poder, em que o lema da geração passada — opte pela verdade em face do poder — transmutou-se em ‘foda-se a verdade e tomemos o poder’.

O pós-modernista francês Jacques Derriba nos alertou para não estar entre aqueles que “numa companhia da qual não me excluo, desviam os olhos em face do ainda inominável que se anuncia e que só pode fazê-lo, como se impõe toda vez que está iminente um nascimento, sob a espécie da não espécie, sob a forma informe, muda, infante e terrificante da monstruosidade”.

A batalha pela alma da universidade está aberta, e temos que agir.

Notas

[1] Nota do tradutor: optei por deixar cry-bullies no seu original em inglês, já que não existe uma tradução possível no momento que possa ser tão direta quanto à original. Cry-bullies seria um tipo de fusão entre o que conhecemos como ‘bebe chorão’ [cry] e ‘o agente do bullying ou o popular bulinador’. É a contradição em carne e osso.


hicks-stephen-2013“A batalha pelas universidades”, por Stephen Hicks. Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Santos III. Artigo original no “The Good Life”. Visite Publicações em Português para ler os últimos artigos de Stephen Hicks.

Stephen Hicks é o autor do livro Explicando o Pós Modernismo e Nietzsche and the Nazis.

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